Despossessões

Jun 20, 2018 Comments Off on Despossessões by

Coordenação editorial Tatiana Faria

 

 

Tiago Novaes, autor brasileiro radicado em São Paulo, nos brinda nesta edição de Ventana Latina com ʺDespossessõesʺ, texto que perpassa por gêneros como a crônica de viagem, o diário e a autoficção. Tendo como ponto de partida quatro territórios, Londres, Rovinj, São Paulo e Cidade do México, e algumas temporalidades: 1998, 2014, 2017 e 2018, mas também companhias literárias como Ernest Hemingway, Roland Barthes, Julian Barnes e Svetlana Alexijevich, Tiago reflete sobre viagens, mas também sobre o que significa habitar um lugar, ou mesmo o mundo.

Com uma prosa ágil e instigante o autor descreve territórios, personagens e sensações as quais um viajante é capaz de se reconhecer, como, por exemplo, a flatmate descolada do apartamento do no sul de Londres, o russo rentista de meia idade que viaja pelo mundo, ou mesmo o escritor solitário em busca de uma boa história para contar, convertendo todo o tipo de experiência em matéria literária e as pessoas que cruzaram sua vida em personagens.

Porém, nem por isso o autor toma a vida e a realidade em sua prosa com a mesma frivolidade de um viajante, pois faz questão de marcar o tempo no qual enuncia pela última vez: Brasil, fim do segundo semestre. Dessa forma, Tiago afasta-se do recorte meramente autoficcional que a sua prosa pode dar a entender, demonstrando que a experiência, quando se transforma em memória e posteriormente em relato, é mais uma história a ser contada, como tantas outras quaisquer. E os recursos literários como o diário, a crônica e a opção pela primeira pessoa, fazem parte dos artifícios que um autor com qualidade literária como Tiago é capaz de usar.

 

Despossessões

 Tiago Novaes

 

Londres, 4 de março de 2018

A casa em East Dulwich é uma graça. O voo foi tranquilo, apesar do português rabugento que encrencou comigo e tentou me impedir de colocar a mala sobre o seu assento. Concluí The Sense of an Ending, do Julian Barnes. Topei com outro livro dele aqui em Londres em um sebo em Brixton. O livro aqui é muito barato e fico dividido entre comprar vários e estourar a minha mala na volta ou explorar a biblioteca da casa em que estamos. A proprietária da casa onde estamos tem bom gosto: Coetzee, Ian McEwan, Nick Hornby, Gabriel García Marquez e Zadie Smith. Tudo o que se poderia esperar de um sujeito letrado. Os cômodos estão repletos de pequenos objetos despojados, plantas contornando os batentes das janelas, móveis curiosos, peças de design. Há uma mesa de dj na sala; uma estante arquivo metálica. Esta é uma casa em que gostaria de viver. Mas não precisaria viver numa casa dessas, claro. A minha está boa demais. Esta, de algum modo, traduz uma vida ativa. Eu vejo a proprietária conversando com amigos. Eu a vejo em projetos com várias pessoas descoladas, em fancy restaurants downtown, o olhar de Rebecca Solnit na orelha do livro. A mulher não tem escrúpulos. Avança, conquista, avança. Não há o sentimento de culpa, o shame de que o nosso amigo romeno estava falando.

Tomei um uber do aeroporto até a casa. O sujeito se chamava Gregori e era da Romênia. Vive há seis anos em Londres. Qual é a diferença entre os latinos e os saxões?, pergunto a ele. Ora, os saxões não têm paixão. Colocamos paixão em tudo! Na comida, nos preparos, temperamos tudo com sentimento. (Ricardo, o português: comemos com os olhos!) Eles não. Atiram qualquer comida ao microondas e dizem que estão cozinhando. É horrível! Se eu convido você para comer, eu pago a sua comida. Aqui, não. Cada um paga o que é seu. O homem combina com a mulher de transar às sextas. O que é isso? “Ah, tenho de voltar mais cedo, isso e aquilo”. O que é isso? Não há hora para amar. E por aí vai Gregori, passando pelos jovens de boca suja, pelo sarcasmo londrino, pelas assistências sociais de que as pessoas costumam abusar. Não querem trabalhar. E da saída do Reino Unido da Europa, o Brexit. Vejo uma crise no horizonte. Holdings e de impostos de importação e exportação, e neste momento eu já acho o papo um pouco enfadonho, o discurso queixoso começa a assemelhar-se a todos os outros discursos genéricos contra o governo; saio do lugar divertido de antropólogo urbano e quero chegar logo.

Encontrei a Tatiana, belíssima. Os meninos não estavam, eu fui conhecê-los depois. Fomos a um pub aqui perto, The Great Exhibition, na Whateley Road com a Crystal Palace Road. Fazia muito frio, mas pelo que disseram, aquilo não era nada, eu precisava ter visto aquela rua dois dias atrás. Era só neve. Cancelaram todos os trens. No pub, os vidros embaçados. Tomamos uma ipa. Um dj tocava bem alto. Em uma mesa jogavam algum jogo de tabuleiro. Num espelho, alguém escreveu uma graça, Write your silly joke over here. Depois, comemos no Mr. Liu, comida chinesa, em Lordship Lane. Comemos um chicken curry, arroz e legumes stir fried.

A casa onde estamos está cheia de escadas. Inventaram de tirar os sapatos. A Tatiana levou um tombo. Agora está com dois salompas, um no cotovelo, outro na lombar.

 

Rovinj, 7 de junho de 2014

ok, ok. Isso aqui é tão bonito que parece de mentira, quase kitsch. Manja aqueles fundos powerpoint com mensagens toscas? Pode desmontar, galera, foi boa a brincadeira. Isso é cenário, é montagem de que rei sou eu, de game of thrones. Tão antigo, tão cheio de história. Mas que história? Reis, invasões, comunismo, ainda este recanto preservado – preservado de quê. Mas por que esta cidade é tão preservada?

Acho um quarto por trinta euros. Tem uma espécie de hidromassagem na sala de banho, uma banheira vertical com luzes, músicas. Mas o aparato não funciona. Entro no fb, vejo os likes, as mensagens privadas. Amanhã vou começar a escrever o meu livro. Já enchi dois cadernos que estão em Budapeste. Acabo de traduzir um livro (que ficou em Trieste). Trouxe apenas os três volumes de Kertész e esse caderno. Desço para a cidade. Minha primeira noite sozinho desde que cheguei à Europa. Está rolando um festival vintage Dolce Vita, muitos óculos de tigresa e um exército de betty boops, acompanhadas por dick tracys com passos leves e de prontidão do lindy hop. A festa termina na praça e continua na antiga fábrica de tabaco.

Tudo tão perfeitinho. Vou bordejando a cidadela circular, e vejo restaurantes à beira-mar, almofadas brancas sobre os rochedos. O romantismo é quase ultrajante. O primeiro e último lugar para uma mulher te levar. Vejo um croata com fantasia de mexicano diante de um restaurante de tacos e tortillas, e fico quase feliz por algo estar fora do lugar. Vejo no telão de um bar o Neymar jogando contra a Sérvia. 35 minutos de jogo, zero a zero. Não fique, não sente. Realizo um saque de 300 kunas no banco sem ideia de quanto é isso. São 300 dinheirinhos. Por via das dúvidas, peço um kebab, que me custa 30 dinheiros, uma fanta laranja que sai por 15 dinheiros. A entrada na fábrica custava 100 kunas, e não entro porque é um terço do que saquei, e estou com sacolinha de plástico e bermuda. Preciso beber. Acho um lugar e a caipiroska custa 40 kunas. Me parece razoável. Afinal, é muito mais barato do que a entrada da fábrica. A moça pede à bartender uma queipiroxxxkkkka. O limão está mais amargo que azedo. A língua às vezes parece o português. Alguém diz: “Sumiu, sumiu” Não há brasileiros aqui. Vi na internet que estou perto de uma das casas de swing mais famosas do mundo. Eles têm uma cobra lá, fazem danças. Peço uma segunda caipiroxka, que agora já virou um drinque eslavo qualquer. Estou divertido e entediado ao mesmo tempo. Saudades de Budapeste, de Trieste, de São Paulo. Aqui tem muita polo Lacoste pro meu gosto. A segunda caipiroxka é mais fraca e tem água com gás. O bar encheu e esvaziou, e a lua parece um queijo gouda pela metade.

O tipo de garota que eu traria para cá odiaria esse cenário. A garota que adoraria as almofadas brancas com champagne não teria muito papo comigo. Eu ficaria entendiado em segundos e simularia um script maníaco para chegar ao final. Rovinj é uma Guarujá do velho mundo, ou uma Parati sem os tabuleiros, a alguns quilômetros de um pacato vilarejo chamado Baderna. Ou Búzios mais em conta. Aqui, toda feiura – o croata bigodudo com sombrero e os ateliês das artistas – são bem vindos. A segunda caipirosca acabou rápido. Peço a terceira ou vou embora?

Descubro agora que 40 kunas são como 16 reais, e que este drinque não é nada barato. A cerveja – Ozujsko – custa 15 kunas. Mais negócio. Volto para casa e peço uma amiga em casamento por fb. Por quanto você quer esse green card, ela pergunta? Não me caso com você gordo desse jeito, ela brinca, mas é verdade.

 

Panama City, 18 de maio de 2017

Cidad de Méhico, última tchamadembarque! Pasajeros a Méhico.

É verdade que as mulheres aqui te dizem no mi amor, não têm troco para cem dólares. É verdade que aqui se aceitam dólares e que os muffins são feitos de mirtilo, uma frutinha delicada parecida com manteiga, nada cítrica como os nossos blueberries, e que quando você pede um edulcorante, te entregam um pacotinho com a bandeirinha dos estados unidos. É uma zona de orbitação real. Estamos mais próximos da fronteira com o Império.

O banheiro do aeroporto é limpíssimo e a descarga da NASA é acionada por um sensor, sinal de que o PIB vai bem. Passa uma família Amish ou algo do gênero. Os homens de macacão jeans e chapéu cowboy, as mulheres loiras de lenços na cabeça, pastoreadas por uma matrona com porte de freira. A internet funciona gratuitamente por exatos trinta minutos e nem um minuto a mais. Não tem gambiarra.

O segundo café da manhã cai muito bem, considerando que o primeiro foi um sobressalto às cinco e meia da manhã, sobrevoando a mais verde selva amazônica, já na fronteira com a Colômbia. Pouco antes, um homem passou mal no avião. A comissária perguntou se havia um médico a bordo. As caras sonolentas das senhoras nas primeiras filas ergueram-se como coelhos mórbidos. Não havia médico a bordo, mas tudo deve ter corrido muito bem, porque quando voltei a acordar, já não se falava em médicos.

Em Panamá City são menos brasileiros, diluídos pela distância da América Central. Eu tentava ler a parte dois da série napolitana de Elena Ferrante, achando-a nitidamente pior que a parte um, mas incomodado pelas famílias e a banalidade das conversas do lado de fora do livro. Quanto foi que você gastou no Duty Free? Ah, estava tanto? Ah!

Vou para outro lugar mais quieto da sala de embarque. Logo uma outra família, sotaque interiorano, retoma um dos assuntos universais da comunicabilidade humana. A gente viaja, se diverte, curte muito, mas olha: nada como voltar para casa, viu.

There’s no place like home. É Dorothy na Terra do Oz quem está dizendo. Poucas horas antes eu estava em casa assistindo a Breaking Bad, uma série que se passa na fronteira com o México. Estou deitado no sofá, aninhado pela luz indireta da sala. Como uma noite qualquer, como se não fosse tomar um uber para o aeroporto em uma hora. Sinto pena de partir. “E se eu ficasse?” Estou tossindo. As costas doem. De praxe: viajar estropiado, passar uns dias com uma diarreia macabra e sentir que estou perdendo alguma coisa, que o mundo é grande demais, que existe algo de vertiginoso e aterrorizante em cruzar oceanos a bordo de um corredor revestido de alumínio. There’s no place like home. A contrapartida da viagem, tão antinatural, seria a sedução mortífera da comodidade. A depender desta filosofia, minha vida se resumiria à dos personagens das séries; eles comeriam poeira enquanto me acomodo neste travesseiro tão amaciado. Reconheço: eu gosto de viajar. Saio e levo comigo a arrogância preguiçosa destas famílias caipiras, porque o caipira sou eu. As conversas incomodam. O humor banal. Os casais que sincronizam o mesmo filme nas telas dos assentos do avião. O jeito com que o executivo à minha direita vai batendo as teclas de seu laptop. A música alta que escapa do celular de uma faxineira que descansa um tempinho na madrugada do aeroporto.

Tomo um café com leite e um muffin de mirtilo. Entre os aviões, carrinhos articulados levam e trazem as malas dos passageiros. É bonito. Na tela da tevê ao meu lado, um chefe da categoria dos taxistas do Panamá denuncia os malefícios do uber ao âncora do programa matutino. O homem tem o cabelo quase até as sobrancelhas. Nenhum sinal de testa. Duas malas aguardam na pista molhada, os carrinhos vem e vão. Puerta 16: San Jose. Puerta 18: Punta Cana. Puerta 12: San Maureen. Managua. Belize. Santo Domingo. Alguém quer saber da conexão para Havana. Ouvem-se as turbinas morosas de algum jato. Combustível. Inspeção. Malas. Tripulantes. Passageiros. Sala de Comando. E então, surge esta família Amish. Depois, um casal magro, estadunidense, na faixa dos sessenta anos, e com eles duas meninas, uma com nove, outra com onze anos mais ou menos, as duas coreanas ou vietnamitas, e fazem dali uma espécie de quarto infantil, espalhando lápis de cor e mapas-mundi. Depois, três jovens mochileiros com a mãe. Estão muito à vontade. Falam baixo e às vezes se põe a rir do que um deles disse.

Vou atrás de comida. Peço um hot dog com chilli & chesse que como em dois minutos e não me dá qualquer sensação de saciedade, com sua carne processada, sua farinha branca e seu queijo plástico. Volto ao portão 15. Retomo a leitura de Ferrante. O livro eletrônico indica que já passei do primeiro quarto do livro. Será culpa do tradutor? Ou a autora, depois do primeiro volume, descobriu que escrevia um bestseller e adaptou a prosa ao ritmo da telenovela. Somos convocados pela comissária a apresentarmo-nos com passaporte e bilhete de embarque.

No avião, viajo ao lado de um sueco tatuado e de uma canadense. Podia jurar que eram australianos. No meio deles, uma sombra escura. Vejo mais de perto e é um buldogue francês (existe isso em português? French Bulldog), meio ausente e ofegante, não entendendo nada do que está acontecendo consigo. Conversamos. Peço uma Corona. Depois, uma Panama. Eles estão a caminho do Canadá, deixar o cão. Vivem numa praia do Panamá há alguns anos. Ele tem um food truck perto da praia. Ela organiza aulas de ioga para estrangeiros num resort. São jovens, simpáticos e entusiasmados. Me divirto com o cachorro. É a primeira conversa da viagem. Começou, eu penso. Ah, viajar é bem bacana.

 

São Paulo, 21 de maio de 2018

No sábado último fui ao Rio. Fazia tempo que não ia ao Rio. O Rio, para todos os efeitos, é outro mundo. É a nossa realidade alternativa (esta primeira pessoa do plural, tão complicada de enunciar). Percorri a rua Luiza (ou Luzia), onde Carolina e Machado de Assis viveram durante um tempo (assim dizia uma placa de bronze). Topei com uma estátua firme, sólida, resistente a ataques, do Manuel Bandeira, meio sentado mas a fim de conversar. Do aeroporto Santos Dumont, fui a pé, no pico dos trinta graus, até a Cinelândia. Como havia me prometido, pedi a truta acompanhada pelo arroz com brócolis e alho frito. Tomei uma cerveja e depois outra diante do Teatro Municipal. As paredes, a luz, tudo chamava outra atenção. Passei pela feira Uruguaiana, que me recordou muito um labirinto de espetinhos e cartões de memória das perifas cartaginesas, na Colômbia. E cheguei no Salão Carioca do Livro. Um agito. O sarau das meninas, fortíssimo. Ainda leve, entrei num teatro e peguei o Paulo Betti no meio duma conversa. Conheci um pessoal bacana, revi pessoas queridas. Eu ia falar ali, e cheguei no palco meio encantado com tudo, e falei do silêncio e do silenciamento, do silêncio a perseguir e do silêncio a combater, que tem sido minha obsessão nos últimos tempos. Olhei nos olhos das pessoas e percebi mais uma vez que não faço isso sempre, que eu devia estar mesmo contente. Passou num instante. Anoitecia, e já havia um carro lá fora, e apanhamos o carro e apanhei o avião que parecia despencar dentro das bolhas de vácuo da atmosfera a que chamam zonas de turbulência. Tudo isso enquanto lia “A Aula”, de Roland Barthes. Em São Paulo, quando pousamos, já era outono.

 

Cidade do México, 19 de maio de 2017

O ritmo do viajante é pautado pela relação entre a sua fome e o tamanho de seu estômago. Há quem se baste com uma sopa de frijoles, o que é louvável. Eu vou pedindo tacos e mais tacos até receber a mensagem de que não há mais espaço e que eu devo parar. Mas ainda estou na metade daquele al pastor com bastante coentro e cebola. Seria uma pena. Continuo, umedecendo tudo com o chilli. As pimentas são vermelhas e verdes, como a bandeira nacional, e sigo aumentando a dose, testando os limites a cada taco. O café da manhã pode ser de churros finos e longos, imoderadamente crocantes, servidos com dips de chocolate ou doce de leite. Em cada esquina, barracas vendem vitaminas de frutas frescas e doces. Peço um antigripal (a tosse persiste) e me servem abacaxi, limão, laranja, goiaba e mel. A versão pequena tem meio litro e desembolso míseros quatro reais. Antes de entrar no Palacio de Bellas Artes, ainda peço um taco num lugar qualquer. É mesmo um lugar qualquer: a tina metálica ferve as partes feias do porco num óleo que já trabalhou mais do que deveria. O taco é saboroso. Em seguida, vou almoçar e peço, por sugestão do atendente, um chamorro. O que é um chamorro? Um prato de arepas e duas pernas de pernil desfiadas. Ou seja, meio quilo de tacos. É quando penso: você terá de colocar os limites por aqui, Tiago, porque esse pessoal não vai fazer isso por você. E ainda, calma: tudo aos poucos. A moderação pode esperar um jantar com guacamole, a tal sopa de frijoles, cerveja Indio e plátanos con crema de sobremesa. Banana da terra com leite condensado.

Estou em companhia de Dmitri, um russo que também está hospedado no apartamento da avenida Amsterdam em Condesa. Dmitri é usbeque e fala um espanhol impecável. Diz ter quarenta e cinco anos mas aparenta cinquenta. Fotógrafo, dois filhos. Viveu na Patagônia, sonha em viver retirado numa casa repleta de cães. Fez muito dinheiro em Moscou com uma agência fotográfica. Hoje, vive da renda que acumulou e de um certo turismo fotográfico, com as cinco mil fotos que hospedou no Shutterstock. É magro, alto, tem o cabelo grisalho e um semblante entre tranquilo e melancólico. Lamenta a Rússia. Acha uma pena que o russo só mostre o melhor de si em momentos extremos. Falo de Svetlana Alexijevich, que ganhou o Nobel em literatura. Ele continua: o russo é, em essência, mala onda. Não à toa, Dmitri se apaixonou pela Argentina. Vai passar uns dias em D.F. antes de encontrar amigos numa casa em Playa del Carmen. Comentamos a ditadura de Pútin e o golpe de Temer. Falamos da instabilidade cambial. Estamos tomando um mezcal com sal temperado com o tal do guzano, o verme saboroso. Digo que estou no México há vinte e quatro horas, mas sinto que poderia passar aqui muito mais tempo que um mês. O que não digo – porque existe aí um reconhecimento prévio de que nosso entendimento comum do espanhol não fará caber estas impressões já tão difíceis de colocar em palavras mais familiares –, é que existe uma ideia de beleza, uma ideia de vida, uma ideia cultural de tempo e de espaço que já antevejo e que me impregna, mas que sei que um mês aqui não será o bastante para operar a sua transfusão. Uma potência tão radical no encontro entre a subjetividade do imigrante com os fatos mais banais da cultura estrangeira e que se identifica com a quintessência da formação, com a natureza humana do aprendizado e da civilização. A variedade de rostos, a piedade que os senhores com os seus realejos incitam, a proximidade curiosa com os californianos, a simpatia da moça de cabelo roxo enquanto explica muito animada cada um dos detalhes dos murais de Siqueiros e de Rivera, murais que falam da esperança socialista, murais bastante católicos em sua didática imagética, bastante inocentes em sua personalização da ameaça imperialista, bastante adolescentes em sua vontade de acusar e de projetar a esperança. Esta esperança que uma mera viagem de metrô anula e reanima, este diálogo interno, sedento por fechar os insights impossíveis de fechar. Disso não consigo falar a Dmitri.

Então falamos de sua mãe, com quem ele não tem qualquer contato. De seu pai, que sumiu no mundo antes que surgisse no filho o aparato da memória consciente. Da saudade pela filha, das escolhas de não ter responsabilidade alguma. Ele não gosta do mezcal e eu quero mais.

Mas não hoje. Hoje o jet lag ainda está batendo. Acordei cedo para descobrir que a Cidade do México leva bastante tempo para despertar. O Zócalo estava vazio: a névoa fria da manhã projetava-se sobre as armações metálicas do que pareciam os preparativos de uma grande festa na praça. São cem anos de Constituição mexicana. A polícia está em toda parte. Num corredor de colunas com vendedores de joias, ouro e prata, a polícia aguarda não sei o quê. No metrô, vejo um grupo de vinte policiais descendo as escadas à toda. A emergência se dissolve mais adiante, porque não há qualquer expressão de alerta entre eles. Num país tão pobre e humilde – os dentes que faltam, a roupa suja das crianças indo à escola, as jaquetas velhas, a calça puída, a pele manchada de sol e o sono da gente nos vagões – a classe policial parece uma forma especial e estranha de cidadania. Uma paracidadania coorporativista e intimidatória.

– E você não sente falta do pertencimento? – pergunto a Dmitri.

– Como assim? – ele quer saber.

– Ah. Nos tempos em que viajei muito, assistia às pessoas nesses lugares todos, ocupadas em todos os sentidos, plenas de atividade e relações afetivas. E nós, em trânsito, estamos sempre de fora.

– Entendo. Sim, sim. Você tem razão.

– Uma comunidade, sabe? No frigir de los huevos, foi a vontade de participar o que me fez voltar e gostar de estar de volta. E o amor.

– O amor.

– Sim, o amor. A saudade pelo meu pai. De meu pai.

– De seu pai ou pelo seu pai? – Sorriu.

Achei graça da pergunta analítica.

– Não sei. As duas coisas se confundem.

Estamos em Condesa. Duas jovens passam num jogging noturno pela ilha central arborizada. Beberico o meu mezcal e o russo assume um ar irritado. Rompe o silêncio.

– Sabe? Viajando eu sentia mesmo bastante falta de fazer parte. Mas quando eu voltei, anos mais tarde, disposto a recuperar um pouco de todos os aniversários infantis que perdi, os nascimentos, os casamentos, não levou muito tempo até me sentir de fora mais uma vez. Achava as festas dos amigos um tanto tediosas. Muitos companheiros não tinham mudado em nada. Até as piadas eram as mesmas. Estavam mais velhos, só isso. Percebi que não perdera tanta coisa e que viajar foi o melhor que podia ter feito.

– Talvez porque você ainda estivesse mesmo de fora. A opinião pode ter sido um recurso defensivo. Sentir-se de fora, anular a impressão da perda, construir uma justificativa que esteja a contento com a biografia.

– Claro – sentenciou, soturno. – Pode ser isso mesmo. Sempre podemos duvidar das próprias impressões. Mas se fizermos isso demais, se passarmos da medida neste esforço de inteligência, não restará nada. Nada sobra. Todos precisamos de um pouco de equívoco e autoengano. Você não acha?

 

São Paulo, 6 de abril de 2018

Lula será preso.

Sonhei que andávamos no Zócalo de Bogotá. Eu ia ao seu lado. Exasperado, pesaroso. Ele mancava. Havia uma ferida em seu pé e eu me aproximava e via um furo negro, uma espécie de furúnculo. Mas não era. Era um tiro no pé. E de golpe, a dor também era minha.

O sonho traduziu uma ambivalência e também uma empatia em relação à figura imensa de um líder.

O Brasil não está dividido. Está rachado. O abismo acaba de alargar-se e o terremoto parece estar apenas começando. De um lado, os que acreditam que a justiça deva ser feita a qualquer custo, ainda que às custas da Constituição (i.e., da Justiça). Acreditam com unhas e dentes e sangue nos olhos que agora vai, que a corrupção começa a erodir, que em seguida caem o Alckmin, o Aécio, o Temer.

De outro, aqueles que acham gravíssimo que um homem que venceria as eleições este ano seja preso sem provas muito consistentes e numa sucessão de manobras jurídicas escusas. O único presidente que apesar dos tiros no pé, tirou vinte e cinco milhões da linha da pobreza e deu protagonismo mundial a um país marcado pela violência histórica e social.

Cai Lula: no lugar, todos parecem querer o poder executivo, fazer política, ocupar o lugar decisório: a Imprensa, o Jurídico, os Militares. Nossa breve democracia, nesta artimanha infinita, também cai. É sepultada em cova rasa, às escondidas e diante de todos. Resta conciliar a serenidade necessária à revolta necessária. Mas como fazer isso? E eu, que acabo de voltar, já desisto um pouco. Não vou fazer isso. Não vou viajar de novo. Não estaremos passando por onda conservadora em todos os continentes?

 

São Paulo, 22 de janeiro de 1998

A irmã do Domec está na Europa há seis meses. Está adorando. Não quer voltar.

O Marcos volta na sexta ou no sábado. Encontrarei o Rios na sexta.

Estou tranquilizando o papai e a mamãe. Imprimi todo o manual da internet. Amanhã (hoje) vou ao British Council. Fiz a mochila. Pesada. Problemas deliciosos.

Comecei a ler Frankenstein.

 

Cidade do México, 22 de maio de 2017

No metrô (cheio, cheio, cheio) que ruma para a UNAM, abro A moveable feast, de Ernst Hemingway, um relato de seus anos em Paris. A cidade europeia dos anos vinte, fria e vazia, é distante desta Comala de vinte milhões, deste solo de torrões vulcânicos e magueys suculentos. Acumulo impressões que já começam a confundir-se. Maybe away from Paris I could write about Paris as in Paris I could write about Michigan. Longe do México seria possível escrever sobre o México, assim como longe do México seria possível esquecê-lo, como se esquece dos nomes das pessoas que se conheceu numa festa semovente.

Agora os murais fazem sentido. Se você não está prestando atenção, não enxerga coisa alguma. Mas se mesmo distraído passa a observar, vai destacando as figuras e mergulhando-as de novo na mancha indiscriminada. Algumas são inteligíveis como o modelo atômico da Biblioteca Central. Outros são deuses mexicas que você ainda não aprendeu a pronunciar e cujos poderes se confundem. Quetzalcóatl, Huitzilopochtli, Tezcatlipoca. Seria possível abrir um parágrafo para cada um deles – ou tatuá-los nas panturrilhas. Mas não é assim que os deuses e o átomo chegam até nós. Não é assim que a capsaicina ou a piperina, as substâncias de qualquer pimenta, estimulam o cérebro. Antes, você sente que a boca está em chamas. E começa a ser inundado por endorfinas. Os olhos lacrimejam, o rosto fica vermelho, a sede cresce. É assim que se deve pensar nesses novos signos. A vingança de Montezuma à razão humana.

Os vagões dianteiros são reservados unicamente às mulheres e crianças. Ao que parece, a administração central pendurou a toalha. O aviso é cor-de-rosa encardido. Cada estação é representada por uma imagem – outra solução precária para o analfabetismo no país. A estação de onde parto é uma abelha. Existem potes de cerâmica. A silhueta de um general sobre um cavalo. Uma pirâmide estilizada. Flores. Uma bandeira.

“Não se preocupe”, diz Hemingway a si mesmo, “Você já escreveu antes e irá escrever agora. Tudo o que tem a fazer é escrever uma sentença verdadeira.” One true sentence. “Escreva a sentença mais verdadeira que você conhece. Enfim escrevia uma sentença verdadeira e partia daí. Era fácil, na época, porque havia sempre uma sentença verdadeira que eu conhecia ou ouvira alguém dizer. Se começava a escrever alguma coisa de forma elaborada, ou gostava de alguém introduzindo ou apresentando alguma coisa, via que era possível deitar fora aqueles entalhes e ornamentos todos e começar com a primeira sentença, simples e declarativa.”

Chego à universidade para assistir a uma conferência sobre a tradução de Pedro Páramo para o nahuátl, o idioma mesoamericano mais antigo que ainda se fala por aí neste vasto estirão. A palestra é a última de uma série dedicada a Juan Rulfo. Soube tarde demais. E chego tarde demais. Vou perder a palestra, porque penso que vai dar tempo de ver a Biblioteca antes. É quando sinto a altitude. As pernas se arrastam. Ainda não sei disso, mas faz cinco dias que as condições atmosféricas são alarmantes no D.F. e recomenda-se restringir as atividades aeróbicas ao ar livre. Contaminación, dizem. Contingéncia.

O campus se parece muito com a USP mas é ainda maior. Há mais gente por toda a parte. Vendem-se cigarros, bebe-se cerveja. Tem gente jogando pingue-pongue, xadrez e go, tem gente fumando o que quer e tocando violão em cima de um slackline. Penso: é bom estar de volta. Entro na biblioteca e me meto entre os livros nas prateleiras do térreo. Apanho o primeiro que vejo: Las mil e una noches. Devolvo-o entre os outros exemplares do mesmo título. Já tenho um Hemingway por aqui. A internet está falhando no celular. Quero saber quanto tempo leva até o Instituto de Investigações Filológicas. Três quilômetros e setecentos metros. A palestra começa em cinco minutos. Desista, Tiago. Entregue-se. Deite na sombra desta árvore. Compre um cigarrinho, se quiser. Abra A moveable feast. Isso, isso. Veja. Hemingway está visitando Gertrude Stein. Woody Allen, seu filho de uma mãe, agora eu só vejo a Kathy Bates de Midnight in Paris. Hemingway se espanta com a sentença verdadeira de Stein, de que a turma dele é une génération perdue. Uma geração de degradados e viciados.

“‘É isso que vocês são. É isso que vocês todos são’ disse Miss Stein. ‘Todos vocês, os jovens que serviram na guerra. Vocês são uma geração perdida.’

‘Sério?’, pergunto.

‘É o que são’, insistiu. ‘Vocês não têm respeito por nada. Vocês bebem até morrer.’”

Estou rodeado dos netos desta geração. Mais: estou rodeado dos filhos dos que foram colonizados pelos netos dos que serviram na guerra.

Uma sentença verdadeira: muito contente de estar ali. Mas é preciso fazer o longo caminho de volta. À noite há uma festa em La Ribera. Uma casa enorme onde vivem uns quinze artistas e as pessoas bebem até cair. Elas caem, arrastam cadeiras consigo e se levantam em seguida. Um deles desenha tatuagens de rena nos ombros e braços dos outros. Outros se despem e afundam de cueca e calcinha num alçapão que fica no centro da sala. Saem encharcados. É a cisterna da casa. Depois, seguem dançando rodeados em toalhas. Toca Mutantes. “Não adianta, eles não gostam.” conta o meu amigo brasileiro. Peço um cigarro a duas pessoas. Não têm. Troco uma ideia com o Daniel, que toca um gênero x com o instrumento y numa banda w num bar z. Depois, converso com uma garota de pernas tatuadas que me encarava muito. Me encanta pueblear.

– É linda a palavra. Pueblear. O que significa? – Pergunto.

– Pueblear. Deixar-se ocupar por criaturas e coisas com vontade própria.

– E plátano?

– Você não sabe o que é plátano?

– Não sei. O que é?

– É um espelho voltado para o infinito.

– E Arandanos?

– É um comichão sem motivo claro.

– E Luces?

– Luces são Luzes, mesmo.

– Hamaca?

– Isso aqui é uma hamaca –, e aponta para uma rede pendurada entre duas palmeiras no pátio interno da casa. – É um tecido que as pessoas usam para tirar os pés do chão e balançar. Um mimo.

 

Londres, 7 de março de 2018

Os princípios são arbitrários, todo mundo sabe. Neste momento, estou em 21 Rodwell Road, East Dulwich, Londres. Estou só, sentado à mesa da cozinha. Do meu lado está um aparelho de rádio vintage cor creme de antena espetada em diagonal, levemente azinhavrada; ao lado dele, um gorro vermelho e flores amarelas quase murchas cujo nome desconheço (não sei nada de flores). Na fruteira estão cinco bananas um pouco maduras, cinco ameixas e um limão siciliano enrugado. Faz frio e por isso deixamos a manteiga para fora, também em cima da mesa, ao lado do laptop onde escrevo isto. Na cadeira do meu lado esquerdo larguei o meu cinto. No espaldar da outra cadeira, o cachecol. Sobre o balcão da cozinha, há uma embalagem quase vazia de leite de amêndoas. Vou sair em breve e quero começar este livro. Sempre que escrevo de verdade, sempre que me vinculo a algo verdadeiro para escrever e abandono a performance literária, o tempo voa. Nem sempre escrevo melhor por isso, mas no momento estou pouco me importando. O livro será rejeitado pelas grandes editoras e a consciência disso é uma libertação. Talvez o livro seja rejeitado até mesmo pelos meus amigos escritores – por demasiado explícito, por carecer de insights ou porque não tenho nada da aura misteriosa do autor viajante de que quero falar – e isso não importa.

O que importa, no momento, é que daqui a pouco, quando estiver ocupado com as linhas seguintes deste livro (que virou um conto, que será um romance), eu já não estarei mais em Rodwell Road. Quando revisar o que acabei de escrever, já terei comido as bananas e o limão já terá apodrecido. Já terei partido para Barcelona e depois para alguma cidade sem turistas da Costa do Sol (não fui; acabei permanecendo em Barcelona). Estarei num lugar falando de outro. E depois retornarei a ele apenas para perceber que não, que estou em outro, a todo tempo. Esta é uma premissa evidente, mas é preciso apresentá-la. Ou não se trata de uma premissa. Quero compartilhar com vocês o fato de que este livro (este conto e depois um romance) exigirá de mim tanto de imaginação quanto de memória. E no momento, careço de ambas as habilidades e vou ter de me virar. Ou terei de buscar sempre aquilo que há de verdadeiro para recomeçar, de um outro lugar que desconheço. O que resta é, evidentemente, o desejo de escrever. E a consciência de que poderei fazê-lo enquanto aguardo a chegada de um ônibus ou de um trem, com a mochila ao lado. E sou tomado de uma alegria imensa, porque nesta história de despossessões, este livro ainda é meu e quero escrevê-lo.

 

 

 

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