Afinal não temos pátria, passamos pelo tempo

Dec 15, 2018 Comments Off on Afinal não temos pátria, passamos pelo tempo by

Thiago Barbalho (Natal, RN, 1984) vive e trabalha em São Paulo.Estudou filosofia e direito e fez mestrado em filosofia. Publicou os livros Um homem bom (contos, Iluminuras, 2017), Doritos (poesia, Vira-Lata, 2013) e Thiago Barbalho vai para o fundo do poço (romance,Edith, 2012). Criou o selo editorial Edições Vira-Lata, pelo qual lançou zinesem colaboração com artistas visuais e participou das feiras Plana e Tijuana.Também criou e editou a Revista Rosa, publicação virtual de arte e literaturaqueer. Em 2018 participa da exposição “Rocambole” em parceria com as artistasYuli Yamagata e Flora Rebollo no Pivô (SP) – prevista para nova edição emPortugal, em fevereiro de 2019. Em julho de 2018 apresentou-se em exposição individual no Kupfer Project Space, em Londres, com curadoria de Kiki Mazzucchelli.

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                                    Por Thiago Barbalho

Uma palavra está parada, amarrada a um sentido.

Por isso é impossível escrever sobre uma viagem.

É impossível escrever sobre uma experiência, ser fiel a ela, sem querer incluir todos os pensamentos que aconteceram graças a ela, já que eles também fazem parte da experiência. Mas é impossível incluir todos esses pensamentos pensados graças a ela.

Uma palavra se amarra a um sentido feito um cão numa coleira amarrada a um poste de luz.

O pensamento é um cão selvagem.

O que se pensa de uma experiência não cabe em combinações, mesmo que infinitas, de palavras.

Além disso, nem tudo que se escreve precisa ser publicado. Nem toda palavra é contribuição pública. Mesmo aquela que parece, a quem escreve, a mais importante delas, pode não servir a mais ninguém.

Esta foi a conclusão a que cheguei pouco antes de publicar o que pensei sobre a viagem e sobre escrever sobre a viagem.

Foi isto que me confirmou a carta que tirei no tarô.

A carta me fez ver que eu não queria publicar o que tinha escrito.       

O que eu tinha escrito era uma recusa à ideia de escrever sobre uma viagem.

O que vem e nos atravessa escapa aos nomes, afinal um nome é estático, enquanto um acontecimento é fluido.

Quando tentamos escrever o que é impossível de escrever, o que não se deixa amarrar num sentido, estamos nos condenando ao fracasso.

Quando tentamos escrever os pensamentos, eles estão cheios de ciladas: eles mostram os dentes.

Prender um pensamento em um texto: amarrar um cão a um poste. Um cão selvagem que, dono de si, saberá se soltar.

Foi gastando o fracasso da minha escrita que cheguei ao desenho, literatura explodida.

O desenho de fluxo, aquele que faço desde que o meu pensamento se rompeu da escrita com que o tentava prender, não pretende parar nada. O desenho de fluxo é um carimbo do instante. É escrita do infinito.

A carta de tarô me fez pensar que as sensações que tive enquanto escrevia meus pensamentos sobre a viagem – e sobre escrever sobre a viagem – são um mau uso de reações a dados acontecimentos.

“Mau” é só um nome, e isto não cabe nele. Desvio talvez seja melhor.

Mas os maus sentimentos que senti e sobre os quais escrevi eram enfrentamento, e não desvio. Eles só não precisavam ser compartilhados.

Aquilo que escrevi e não publiquei serviu de via. O fracasso serviu de via para explodir a escrita e me soltar dela.

Depois do fracasso vem a agressividade. Com agressividade, celebro o rompimento dos limites. Isto tudo é via.

A agressividade é bem-vinda se produz mais vida àquele que a produz.

Quando você fracassa, tem a chance de gerar uma agressividade produtiva. Se não, pode ficar ressentido, inativo, vencido.

É preciso entender a agressividade como vontade de mais vida.

Primeiro fracasso, depois agressividade, depois agradecimento, depois celebração, depois compartilhamento.

Pensamento é via. Sensações são vias. Celebração é chegada.

Viajamos no tempo enquanto passamos pelos pensamentos.

Nunca deixamos de viajar.

Mas não somos estrangeiros quando na terra em que andamos temos amigos.

Somos estrangeiros na cidade em que moramos, no país em que nascemos ou na casa em que crescemos quando ali não nos sentimos acolhidos.

Então buscamos acolhimento aonde for.

Acolhimento é a casa do viajante no tempo que somos.

Um acolhimento pode se dar entre duas pessoas, entre uma pessoa e uma paisagem, entre uma pessoa e um livro.

Nem acolhimento nem fracasso reinam sozinhos. Os dois estão aí.

Estamos o tempo inteiro viajando no tempo.

Afinal não temos pátria, passamos pelo tempo.

Se falarmos de alguém que, no passado, olhava para um desenho, diremos que esse alguém via.

Ver é via.

É bom se perder numa cidade: existe uma adrenalina ambivalente que se balança entre a alegria do descobrimento e a aflição de estar vivendo no imediato.

Troque a palavra cidade por vida e o sentido acima se mantém. E já não falamos apenas de um espaço.

Viver é se perder e encontrar o que está ali, e não depende de você o que encontra.

Viver é via.

Andar perdido numa cidade é igual a estar vivo sem disfarce, que é igual a tirar uma carta aleatória num baralho e dar um significado a ela, que é igual a desenhar sem seguir um plano. Que é igual a se soltar de uma coleira.

Afinal não temos pátria. Passamos em via e nada é de ninguém.

Eu sou e estou sendo isto que não se fixa. O nome que chega mais perto de mim é via.

A boca se abre para pronunciar uma clareira e o dedo quer digitar uma palavra precisa, mas o gesto da boca aberta e da mão à procura são tudo o que se poderia dizer: fluxo, via, gestação, prenúncio.

Um desenho sem plano, um longo desenho sem plano, por dias, meses, os passos, um desenho sem plano.

O que está vindo o tempo inteiro escapa à escrita, mas não escapa aos traços que não formam nomes: desenho.

Afinal, via é sem-nome e é tempo. Desenho é o rastro de sua passagem. Por exemplo: pinturas rupestres.

A lua não se segura em nada, eu não me seguro em nada.

Se eu me fixasse muito neste pensamento perdido numa cidade desconhecida, se me segurasse na consciência de que nada, nem eu, nos seguramos em nada, seria como se tentasse parar o que é impossível de parar. É isto o que as palavras fazem.

Existe uma coisa aqui que para estar aqui da melhor maneira não é nomeada.

Desisti das palavras para celebrar a via quando me transformei num homem rabiscando cavernas moles. Agora não tento me segurar porque me seguro na certeza de que tudo é passagem.

Chegada do começo ao fim atravessa e é clareza.

Perigo é querer se apossar. Nome nenhum porque tudo.

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